- Tu trabalhas aqui?
- Toda gente tem que trabalhar, né? Eu arranjei um bom trabalho, passeio e conheço pessoas novas. Quem quer bons trabalhos arranja-os, né?
- E como arranjaste este trabalho?
- Foi fácil. Foste tu.
- Eu?
- Ainda não percebeste? O que estás aqui a fazer? Como vieste aqui parar?
- Não, nem por isso.
- Não vou estragar isso então. Deixo isso para o fim, o genérico final. O próximo é muito divertido, é o homem que sabe tudo. É muito difícil manter o diálogo com ele.
- É mal disposto?
- Não, nada disso, muito pelo contrário é muito divertido. Apenas é como falar com um espelho. No fundo é um monólogo.
- Porquê?
- Porque ele simplesmente sabe tudo.
Calei-me, percebi que não iria saber muito mais pelo bola de pelo. Sabe tudo….é o que vamos ver. Ninguém pode saber tudo, nada possui o conhecimento absoluto. Quem é que consegue olhar para si e definir-se com um total rigor? Nem com ajuda de um espelho isso é possível. Por mais introspecções ou reflexões que possamos ter, vamos ser sempre surpreendidos com os feitos que conseguimos alcançar. Afinal de contas, o céu é o limite.
E lá estávamos nós, regados com o luar à procura do tal sabichão. A fome apertava, decidimos parar. Subimos a uma árvore para pedir emprestado umas maças, e descansamos abraçados por uma fogueira, plantada pela imaginação. O Gomo adormeceu assim que paramos, fiquei eu na companhia dos meus pensamentos e dúvidas.
Quem seria esse tal homem? Será que ele sabe mesmo tudo? Mas tudo? Tudo de quê? De historia? De matemática? De quê?
Foi então, que uma mão interrompeu o meu questionar.
-Olá
-Quem és tu? O que queres?-respondi assustado.
-Calma. Está tudo bem.
- Tu és…
- Sim, sou eu.
- Então tu é que …
- Sei tudo, sim é verdade. Mas não gosto de me gabar muito.
- Não me deixas…
- Acabar as frases, é um vício antigo, desculpa.
Era incrível, mas não preciso de falar mais, eu sabia quem ela era. Debrucei-me então na resposta…
- És deus, não és?
- Fogo, acertam sempre à primeira. Estou a perder o jeito.
- Então tu existes? Sempre há um ser universal.
- Sim é verdade, mas não sou um ser universal. Sou um ser bastante íntimo, habito no interior de cada ser existente. Não sou o criador do universo ou do mundo, nada disso. Nem sequer escrevi a bíblia. Mas sou sim, o criador das motivações, a vossa mãe ou pai, o vosso jogador ou escritor favorito, aquilo vos dá pica, não é assim que vocês jovens dizem? Pica? Sou as vossas crenças, independentemente da religião. Sou o deus ateísta, todos têm motivações e crenças, ninguém está ausente de sonhos, eu sou esses sonhos. Eu sou esses sonhos, os vossos prazeres, as vossas devoções, os vossos deuses.
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2 comentários:
Tens uma tara com deus assim a fugir para o estranha ...msmo assim gosto do que escreves :)
ve se escreves o fim...
fico a espera *
e o q e que interessa?
(agora que ouço a pergunta que lanço na teia à espera da presa percebo que também me deixei enrolar nos seus fios confusos.. descobrir esta resposta talvez seja encontrar o santo graal, a pedra filosofal da alquimia mais poderosa e libertarmo-nos dos fios invisiveis da teia que nos constrange e limita. sempre.)
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